contrafluxo do sistema de consumo


COMO A LOGÍSTICA REVERSA PODE SER UMA IMPORTANTE FERRAMENTA DE MARKETING PARA AS EMPRESAS E AJUDAR NA REDUÇÃO DE CUSTOS DE PRODUÇÃO

Comprar um produto pela internet, não gostar do que recebeu e poder devolver a mercadoria, sem qualquer custo. Quem já fez uso desse simples sistema de logística reversa já sentiu na pele os encantos – sob o ponto de vista do consumidor – da implantação de sistemas que permitem o contra fluxo na cadeia logística de consumo. O exemplo é simplista e abrange apenas um aspecto da logística reversa, mas permite entender como a existência desses sistemas pode fazer maravilhas para a imagem de uma corporação. Em linhas gerais, logística reversa é o processo que permite o retorno do consumidor final para o produtor. É o fluxo inverso do processo de consumo e existe em duas grandes variáveis: logística reversa de pós-venda e logística reversa de pós-consumo (veja quadro). Em ambos os casos, a logística reversa é promovida para atender a uma necessidade do cliente (eventual troca), atender à legislação quanto à destinação correta de resíduos ou reaproveitamento de materiais pela empresa no processo produtivo. Apesar de ser ainda tímida no Brasil – com exceção de alguns nichos de mercado –, a logística reversa pode acontecer em diferentes estágios do processo produtivo e não apenas entre vendedor e consumidor final. Há diversos ramos, como o de montadoras, que já exigem de seus fornecedores de matéria-prima sistemas de logística reversa.

DISTORÇÃO

O coordenador do curso de Logística Reversa Empresarial da Fundação Getulio Vargas (FGV), Orlando Cattini Junior, explica que o conceito mais difundido de logística reversa é o do retorno de embalagens e de destinação correta de resíduos após a vida útil de um produto. No entanto, a prática é bem mais abrangente do que isso. Para ele, a publicação, em 2010, da Lei 12.305, que instituiu a Política Nacional de Resíduos Sólidos, ajudou a deturpar o conceito de logística reversa. “A lei contribuiu muito para a distorção do conceito, já que o próprio texto da lei estabelece o entendimento de logística reversa no país com um foco bastante voltado para a questão ambiental e de sustentabilidade. Tanto é assim que, segundo essa lei, a logística reversa é definida como um instrumento de desenvolvimento econômico e social caracterizado por um conjunto de ações, procedimentos e meios destinados à viabilização da coleta e destinação dos resíduos sólidos ao setor empresarial para reaproveitamento em seu ciclo ou em outros ciclos produtivos ou destinação final adequada”, afirma. Para Cattini, esse conceito ajudou a reforçar a ideia caricatural de que lo - gística reversa é recolhimento de lixo. “A figura mais caricatural disso é o catador de lixo trafegando pela Avenida Paulista numa carrocinha cheia de material reciclável. Com certeza, essa não é a maneira mais eficiente de você garantir o retorno dos resíduos. Apesar de ser até socialmente louvável, isso não é o que uma logística reversa racional deveria focar”, afirma.

Para o adm. Hélio Meirim, coordenador da Comissão de Logística do Conselho Regional de Administração do Rio de Janeiro, a Lei 12.305 tem seus méritos. Ele trabalha na área desde a década de 1990 e viu os processos de logística reversa ganhando espaço nas empresas brasileiras. Segundo ele, a publicação na Política Nacional de Resíduos Sólidos deu um importante pontapé para a logística reversa no país. “Os aspectos legais preconizados pela lei permitiram que a logística reversa ganhasse espaço na agenda estratégica de algumas organizações. Esse avanço deve-se principalmente ao entendimento, por parte das empresas, de que os processos de logística reversa são positivos à imagem institucional”, afirma. Meirim ainda completa: “Outro aspecto que temos que levar em consideração é quanto às necessidades de maximização dos resultados financeiros. Nesse sentido, as empresas, ao implementarem políticas de logística reversa, conseguem recuperar valor nos produtos que seriam destinados de forma inadequada, conseguindo assim reduzir seus custos operacionais”. Leonardo Ferreira, administrador e membro do Grupo de Excelência em Gestão da Cadeia de Suprimentos e Logística do CRA-SP, afirma que, no Reino Unido, os negócios envolvendo resíduos empregam cerca de 2,5 milhões de pessoas e promovem impacto sobre o PIB de 1,5%. “No Brasil, apesar de não haver estatísticas oficiais, dados coletados pelos institutos especializados mostram que a logística reversa representou em 2016 em torno de 0,5% do PIB brasileiro – algo como R$ 33,15 bilhões”, afirma. Ferreira aponta que, além da promoção da imagem corporativa, a logística reversa é obrigação legal em alguns segmentos. Ele explica que o artigo 33 da Política Nacional de Resíduos Sólidos estabelece a obrigatoriedade para que alguns setores implantem sistemas de logística reversa:

SETOR DE AGROTÓXICOS (RESÍDUOS E EMBALAGENS)

PILHAS E BATERIAS

PNEUS

ÓLEOS LUBRIFICANTES (RESÍDUOS E EMBALAGENS)

PRODUTOS ELETROELETRÔNICOS E SEUS COMPONENTES

LÂMPADAS FLUORESCENTES, DE VAPOR DE SÓDIO E MERCÚRIO, DE LUZ MISTA

ENTENDIMENTO INTERNACIONAL

Cattini explica que a concepção mais simplista que se leva em conta no Brasil não engloba todos os parâmetros da logística reversa. “O conceito internacional desse tema refere-se a todos os processos físicos e administrativos relacionados ao fluxo comercial de materiais e embalagens, do ponto de uso ao ponto de fabricação, englobando coleta, inspeção, desmontagem, reprocessamento ou até alienação dos itens devolvidos. Essa visão mais estratégica da logística reversa refere-se a tudo o que volta ao fabricante ou outro elo montante da cadeia, ao contrário do fluxo natural de distribuição, que vai do fabricante para o consumo”, explica. Apesar de limitar o conceito de logística reversa, a Lei de Gestão de Resíduos Sólidos veio para preencher uma lacuna necessária num país de dimensões continentais como o Brasil. Dados do Ministério do Meio Ambiente mostram que são gerados anualmente mais de 64 milhões de toneladas de resíduos domiciliares e públicos no Brasil. Esse valor ainda não representa a totalidade porque leva em conta o lixo coletado em menos de 70% das cidades brasileiras que participam do Diagnóstico do Manejo de Resíduos Sólidos Urbanos. A última edição do estudo é de 2014.

Apesar de não ter estatísticas específicas sobre logística reversa, o Ministério do Meio Ambiente consegue medir o quanto dos resíduos gerados no Brasil acaba sendo reciclado. O Ministério informa que o IBGE realiza um estudo chamado “Indicadores de desenvolvimento sustentável”, que contabiliza esses valores. A última edição do trabalho, de 2015, traz dados de 2012 e aponta que foi reciclado no país um percentual próximo a 100% das latas de alumínio, cerca de 60% das embalagens PET, 47% das latas de aço e 47% do vidro, 45% de papel e 19% de embalagens longa vida. Mas, de acordo com Cattini, a amplitude de atuação e os conceitos de logística reversa devem ir muito além da reciclagem de embalagens. “Se você se preocupar apenas com o retorno das mercadorias, embalagens ou produtos com defeito, você apagará incêndio, quando na verdade precisaria prever o fogo”, afirma. De acordo com o professor, a logística reversa precisa começar a ser pensada já no desenho do produto, que deve ser concebido de tal maneira que facilite seu retorno, desmontagem e recondicionamento. “Esse é só o começo. As empresas precisam redesenhar seus sistemas de produção, reavaliar os itens que utilizam nesse processo porque nem sempre o mais barato é o material próprio para retorno e utilização, sem se esquecer de conceber um sistema de distribuição que leve em conta o recebimento desses produtos devolvidos por quem os consumiu”, explica. Para finalizar a cadeia, as empresas também precisam estabelecer mecanismos de reinserção desses produtos no ciclo produtivo. “A logística reversa tem que tratar de todos esses itens, não é só um transporte de volta, é uma coisa muito mais ampla. Eu acho até que não devia se chamar logística reversa porque aí você está sendo contaminado pelo nome logística, que se refere à distribuição, transporte, armazenamento. A logística reversa é muito mais do que isso”, afirma Cattini.

FORMAÇÃO

Como não existem cursos específicos para formar especialistas em logística reversa, diferentes tipos de profissionais acabam cuidando do setor dentro das empresas. “Temos alguns cursos vinculados ao tema de sustentabilidade que têm um pouco mais de cuidado com questões sobre o manuseio de resíduos sólidos, mas é muito raro encontrar profissionais que conheçam as várias implicações empresariais. É uma lacuna que provavelmente abre uma oportunidade muito grande para os futuros profissionais”, afirma Cattini. De acordo com o professor, o profissional ideal para atuar nesse segmento de mercado precisa ter grande conhecimento técnico do tipo de produto comercializado pela empresa, deve ter amplo conhecimento administrativo – para poder integrar todas as áreas da empresa e os diferentes elos da cadeia produtiva – e ser um bom negociador. De acordo com o adm. Leonardo Ferreira, ainda faltam aos profissionais brasileiros conhecimentos mais aprofundados de matemática financeira, custos logísticos, análise de investimentos, gestão empresarial, pesquisa operacional e estatística aplicada à logística. “Para atuar com logística reversa recomenda-se formação específica na área, porém, no Brasil, faltam bons cursos profissionalizantes e os que dispomos ainda estão bastante distantes da combinação ótima entre a teoria e a prática. O maior aprendizado está na convivência e troca de experiências com seus colegas de trabalho, na relação com os clientes e na execução da rotina diária”, avalia. Antônio Sampaio, coordenador do Gelog do CRA-SP, acredita que o mercado de logística reversa é um nicho em ascensão para os profissionais. “O administrador, com sua visão mais generalista, pode não só atuar nessa área, como também seguir em outras áreas correlatas e, nesse sentido, demonstrar um diferencial para atuação no mercado”, afirma. A formação ampla do administrador e a visão sistêmica das corporações facilitam o trabalho com os processos de logística reversa. De acordo com Hélio Meirim, os administradores já têm em sua formação a possibilidade do desenvolvimento de competências e habilidades que ajudam quando se trabalha em projetos de logística reversa.

fonte: Sâmar Razzak

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